Saúde no Amazonas: comunidades ribeirinhas de Carauari transformam décadas de perdas em esperança

Saúde no Amazonas: comunidades ribeirinhas de Carauari transformam décadas de perdas em esperança
© Lucas Bonny/FAS

A distante zona rural de Carauari, no coração do Amazonas, foi por décadas palco de histórias marcadas pela ausência e pela tragédia. Para Francisco Solivan Peres de Araújo, atual presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), a memória da perda é um eco doloroso do passado. Sua mãe faleceu durante o parto da irmã, quando ele tinha apenas dois anos, vítima de uma hemorragia em um tempo onde o socorro médico na cidade era uma impossibilidade remota.

O relato de Solivan não é um caso isolado, mas um triste retrato de uma realidade comum em toda a região. Perdas de vidas, sequelas permanentes e traumas profundos foram o preço pago pela imensa distância entre as comunidades ribeirinhas e a estrutura de saúde urbana, muitas vezes agravado pela falta de recursos para o deslocamento. Carauari, um dos maiores municípios do Brasil em extensão territorial, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados, é um labirinto de rios e florestas que tornam a viagem até a cidade uma jornada de horas ou até dias, dependendo das condições do rio e do tipo de embarcação.

Um passado marcado pela distância e a ausência

A reportagem da Agência Brasil, em uma expedição recente, vivenciou a complexidade logística da região. Após 35 horas de lancha expressa de Manaus até a sede de Carauari, foram necessárias mais quatro horas para chegar à comunidade de Bauana e outras quatro para alcançar áreas como Campina. Durante essa jornada, inúmeras histórias trágicas foram ouvidas, revelando um passado onde a falta de políticas públicas de saúde para a população ribeirinha resultava em desfechos evitáveis.

Até os anos 90, a ausência de atendimento era ainda mais crítica. Embora a prefeitura tenha implementado um sistema de lanchas de resgate para emergências, os relatos de demora persistem devido à vasta extensão a ser percorrida. Adriana da Silva e Silva é um exemplo vivo dessa realidade. Em janeiro de 2019, na comunidade de São José do Nachiqui, ela foi picada por uma cobra. O resgate, indisponível no momento, demorou mais de 24 horas para chegar.

“A gente chamou o resgate, só que no momento não estava disponível. Demorou mais de 24 horas para chegar o atendimento. Quando eu me desloquei da comunidade até a cidade, em razão das horas que eu passei, eu sofri muito devido ao veneno e não tinha soro. Aí minha perna inchou muito, ficou irreconhecível. Para não perder a perna, eles tiveram que fazer quatro cirurgias”, contou Adriana. Cogitou-se a amputação em Manaus, mas os médicos de Carauari conseguiram salvar o membro. Contudo, as sequelas são permanentes: “Às vezes, quando eu ando, eu perco o tato da perna. E se eu ficar muito tempo com a perna encolhida, eu tenho dificuldade para esticar e se eu ficar com ela esticada, eu tenho dificuldade para encolher. E ela incha muito”.

A luta por atendimento e as marcas de uma tragédia familiar

Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), também carrega as cicatrizes de uma perda familiar. Em 1994, seu irmão adoeceu na comunidade Mandioca. Sem apoio governamental ou de organizações de base, a única esperança era um “regatão” – comerciante ambulante que navega pelos rios – para o deslocamento até a sede do município.

“Até os anos 90, aqui no Médio Juruá, a gente tinha pouca assistência em vários sentidos, mas a da saúde era a mais carente. Em 1994, a gente morava na comunidade Mandioca e o meu irmão adoeceu. Nessa época, a gente não tinha apoio de governo e das organizações de base, que hoje têm esse trabalho fortalecido. A gente dependia de regatão para fazer um deslocamento até a sede do município para ter um atendimento médico. E o meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando. A gente não tinha condições próprias na época”, relatou Raimundo.

A carona no regatão demorou uma semana para se concretizar, e a prioridade do comerciante era a venda de mercadorias, não a urgência médica. “O fato é que, depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada pela saúde dele – e ele veio a óbito”, lamentou Raimundo, que até hoje não sabe a causa da morte do irmão, que reclamava de dores na barriga. Essa situação era tão comum que muitas famílias, como a de Raimundo, foram forçadas a se mudar para a cidade em busca de melhores condições de saúde.

Saúde mais próxima: um novo horizonte para o Amazonas

A partir de 1997, um ponto de virada começou a se desenhar. Com o fortalecimento de organizações locais, a busca por direitos se intensificou, e o Médio Juruá passou a receber um “olhar especial”. Para os ribeirinhos, a lição era clara: a proximidade do atendimento médico poderia ter mudado o desfecho de inúmeras histórias trágicas. A instalação de postos de saúde e a melhoria na logística de atendimento representam um avanço significativo, transformando a realidade de comunidades que antes viviam à margem dos serviços essenciais.

A experiência de Francisco Solivan, Adriana e Raimundo, embora dolorosa, serve como um testemunho da importância de políticas públicas contínuas e do engajamento comunitário. O acesso à saúde, que antes era um privilégio distante, começa a se tornar uma realidade mais tangível, reduzindo as histórias de perdas e abrindo caminho para um futuro com mais esperança e qualidade de vida para os moradores do interior do Amazonas. A luta por esses direitos básicos continua, mas os avanços já colhidos são um alívio para quem viveu na pele a ausência de socorro.

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